DINHEIRO PÚBLICO - CPI CONTRA FARRA DO BOI
Dinheiro público - CPI contra farra do boi
Demóstenes Torres trabalha para que Senado investigue relação suspeita entre BNDES e grupo JBS, de Júnior do Friboi
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) investiu mais de R$ 70 bilhões em projetos, fusões e aquisições nos últimos anos. À medida que se torna uma das maiores instituições financeiras do mundo, cresce também o debate sobre os critérios que utiliza para determinar quem tem pode ter acesso aos financiamentos. O grupo JBS, do empresário goiano Júnior do Friboi, é um dos “eleitos”. Há uma sucessão de episódios envolvendo o grupo e o BNDES que despertaram a atenção do Ministério Público Federal (MPF) e que agora devem ser investigados pelo Congresso Nacional, como deseja o senador Demóstenes Torres (DEM).
Demóstenes está empenhado em colher assinaturas necessárias para instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), com objetivo de investigar a farra do boi. O senador informou ontem ao DM que o requerimento já tem pelo menos 22 das 27 subscrições necessárias. A proposta ganhou força em novembro do ano passado, quando o presidente do Banco, Luciano Coutinho, compareceu a audiência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e foi confrontado com suspeitas gravíssimas apresentadas por Demóstenes. O embaraço foi geral.
O senador lembrou que, em 2009, o banco emprestou R$ 39,4 milhões para o conglomerado comprar um jatinho. “Gostaria de saber se é política social do BNDES emprestar dinheiro para que grandes grupos financeiros comprem jatos”, questionou. Coutinho se negou a discutir o assunto, alegando tratar-se de “questão pequena demais”.
O senador, então, mostrou dados que comprovam que 80% dos empregos gerados pelos frigoríficos JBS estão fora do Brasil. Demóstenes cobrou uma postura mais democrática do banco. “Um dos motivos da existência do BNDES é estimular um mercado menos concentrado, porém, com aval financeiro do banco, o JBS tem um domínio tão grande do mercado que os pequenos e médios frigoríficos estão fechando e demitindo milhares de funcionários”, disse.
Ainda na audiência, requerida pelo senador, Demóstenes apresentou um vídeo no qual o dono da JBS, Júnior Friboi, diz que ele é quem define “o valor do boi, e não o produtor, porque se o JBS resolver parar de comprar gado, o preço do boi despenca em vários Estados”. Demóstenes perguntou a Luciano Coutinho: “Como o senhor avalia as declarações do JBS, que diz que ele é que regula o preço da carne?” O presidente do BNDES afirmou que é comum que os grandes grupos consigam influenciar no valor de alguns produtos. “Porém, eu teria que avaliar melhor este vídeo para entender do que se trata”, respondeu.
BOLSA BNDES
Por fim, o senador questionou Coutinho sobre operações no mercado financeiro envolvendo o grupo JBS: “Recentemente, o BNDES reforçou a imagem de criação da ‘bolsa BNDES’, em uma operação, que eu diria que foi, no mínimo, suspeita. No mesmo dia que as ações do grupo JBS estavam cotadas a R$ 5,77 na Bovespa, o BNDES fez uma operação de debêntures e comprou estas mesmas ações por R$ 7,04, e somente neste superfaturamento das ações o grupo JBS lucrou R$ 65 milhões. Gostaria que o BNDES explicasse por que comprou as ações por um valor acima do mercado.”
Segundo Luciano Coutinho, a operação foi proveitosa para o banco porque previa a média das ações em um valor das últimas 60 cotações das ações. “O valor apontado é superior à cotação do dia, mas inferior à média das últimas 60 cotações”, respondeu o presidente do BNDES.
Na opinião do senador, existe favorecimento explícito do banco ao conglomerado gerido pelo rei do gado. “Muita gente acha que CPI é desrespeito, mas CPI é investigação para ver se está certo ou errado, para ver se tem algum desvio ou não.”
“É a comissão que o governo mais teme”, afirma senador
Em entrevista ao Diário da Manhã, o senador Demóstenes Torres (DEM) classificou ontem como “escandalosa” a relação entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o grupo JBS, do empresário José Batista Júnior, o Júnior Friboi. Na sua opinião, a proposta de criar uma comissão para investigar o banco causa arrepios ao Planalto? “É a CPI que o governo mais teme”, afirma.
“O BNDES tem que ser investigado. Eles beneficiam só grupos que eles querem para criar empresas ‘campeãs’. Coisa totalmente atrasada. Serve para enriquecer as pessoas, e isso volta em forma de propina e doação para campanha eleitoral.”
“Apoios” chegam a R$ 7 bi
O BNDES tem sido um importante apoiador da expansão do JBS, estimulando as aquisições do grupo no Brasil e no exterior. O incentivo é norteado pela Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), que elegeu como prioritário o setor de carnes, por ser um dos mais competitivos da economia brasileira.
Com seu apetite para aquisições, os irmãos Júnior Friboi, Wesley e Joesley Batista, conquistaram o apoio do BNDES para fazer da sua JBS uma multinacional. O banco já aplicou pelo menos R$ 7 bilhões no grupo. A maior parte via instrumentos de mercado, como compra de debêntures e ações, que não contam com as condições favoráveis das linhas de crédito convencionais do BNDES. O banco detém hoje 20,6% do capital do JBS.
Fonte: Diário da Manhã










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