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Brasileiros sofrem com a falta de transporte coletivo de madrugada (JG - 31/07/2009)

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Fonte: Jornal da Globo

Um retrato do transporte coletivo na madrugada de grandes cidades brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Ceilândia.

Alberto Gaspar São Paulo

Mônica Sanches Rio de Janeiro

Mauro Anchieta Salvador

Guilherme Portanova Brasília

Vocês se lembram do sambista Adoniram Barbosa, aquele que ficou famoso quase 50 anos atrás com a música o 'Trem das Onze'? O último trem, depois dele não tinha mais como voltar para casa?

 

Adoniram já morreu, mas a situação da noite para quem precisa de transporte coletivo continua a mesma de 50 anos atrás: se não pegar o ônibus até meia noite, só amanhã de manhã.

No histórico coração da cidade, o relógio recomenda pressa, rumo ao metrô. "Tá quase né? vai lá". À 1h, já é tarde demais. "A partir de agora não tem choro nem vela?". As estações dos outros trens urbanos também estarão fechadas. A partir de agora, a correria é atrás de ônibus.

Nas primeiras horas da manhã, São Paulo chega a ter quase 14 mil ônibus em circulação. No fim da noite, entre 22h e 1h da madrugada, eles ainda são quase cinco mil. Mas a partir daí, o número cai drasticamente, só 300 continuam circulando. Quem precisa deles, acha pouco.

Isabel trabalha como copeira, em festas. "Não tenho horário certo. Se passou do horário é de uma em uma hora. Às vezes não passa mesmo já aconteceu comigo. Para passar o tempo eu fico aqui pensando só, pensando no horário", conta.

Existem 66 linhas que não param durante a noite, mas além dos intervalos longos, os destinos são limitados, deixando muita gente no meio do caminho. Quem desembarca em um terminal, já na periferia da cidade, depois de certa hora. "Tinha uma lotação aqui, eu ainda corri, mas não consegui pegar", afirma o encarregado de produção, Evaldo de Souza.

Uma avenida corta a região do Morumbi. Nenhum ônibus ou van vai passar por aqui, nas próximas horas. Para quem não pode pagar táxi, este é o único jeito de chegar a uma das maiores favelas da cidade. Uma longa caminhada. "Só vou voltar umas 4h30, 5h. Dancei", diz o lavador de carros, Hamilton da Silva.

De madrugada no Rio de Janeiro circulam 21% das linhas de ônibus que existem na cidade. Segundo uma resolução da Secretaria Municipal de Transportes, o intervalo entre os ônibus nos pontos pode ser até de uma hora.

Filas enormes, disputa pelos ônibus. Tudo isso às 1h, horário do rush para quem busca a última chance. "Fazer o que, eu não posso ir a pé. É bem longe". "Não é qualquer dia que a gente tem R$ 4 para pegar uma van".

O horário da correria na Central do Brasil é um pouco mais cedo. Os últimos trens partem pouco antes das 23h. "Se eu perdem esse trem só amanhã". O trem sai e para. Os atrasados ficam na expectativa, mas as portas não abrem de novo. "Corri muito, mas não deu tempo".

As portas da estação fecham a meia-noite em ponto. A justificativa é a necessidade da parada para a manutenção, mas na opinião do especialista em transportes, Fernando Mac Dowell, seria possível prolongar o metro até às 2h. "É uma questão meramente de planejamento e ter gente competente para fazer esse tipo de trabalho", afirma , doutor em engenharia de transporte.

Esta é a maior estação de ônibus urbanos de Salvador. Fica bem no centro da cidade. Durante o dia, mais de 400 mil pessoas passam por lá. Já na madrugada o terminal é um retrato do transporte coletivo na capital baiana entre 00h e 4h. Praticamente não existe.

São apenas 13 ônibus fazendo o chamado 'pernoitão'. Quase nada para uma cidade de três milhões de habitantes. A população da periferia é a que mais sofre. "Eu sai do trabalho a 00h, cheguei na estação 1h30 da manhã e só vou pegar o outro ônibus 3h30".

Madrugada em Brasília e ainda tem bastante gente no ponto de ônibus. O metro passa bem aqui em cima, mas o último trem saiu as 23h30. "É muito difícil passar ônibus aqui". "Vamos arriscar ver até que horas e ver se passa".

Dona Romana conhece bem essa história. Ela mora em Ceilândia e trabalha em Brasília. Para chegar ao trabalho poderia pegar duas conduções, mas a conta ficaria muito alta. Pelo menos R$ 10 por dia.

Para economizar sai de casa com o céu ainda escuro. Antes das 5h o ponto ainda está vazio. "É perigoso demais. Já fui assaltadas duas vezes nesse ponto".

Em plena Avenida Paulista, a jovem acabou sozinha no ponto de ônibus. Camilla Adami, estudante de nutrição, mora longe. Ela estuda o dia inteiro. À noite, encontrou uns amigos e perdeu a hora. "Acho que tem ônibus até umas 2h".

Resolvemos dar plantão, mas nada do ônibus. 2h15, quase 2h20, não veio ônibus. A Camila está desistindo, vai para a avó. "Eu vou dizer que o ônibus não passava e que tive que desistir, senão ia esperar ônibus só às 6h."

Ainda fomos a uma região boêmia da cidade que, com a lei seca, recebeu uma linha destinada aos baladeiros, mas aprovada mesmo pelos trabalhadores da noite. "É difícil pegar o pessoal que vem da balada aqui. O pessoal que vem da balada continua andando de carro ou ainda está nos barzinhos bebendo", afirma o motorista Edson Sparafan.

Faltam cinco minutos para 6h e faz bastante frio na cidade satélite de Ceilândia. Há 1 hora e 20 minutos estamos ao lado da Dona Romana esperando o ônibus. Hoje vai ser mais um dia em que ela vai chegar no trabalho dando explicações pelo atraso.

São 40 minutos de viagem. Os passageiros tiram um último cochilo. Dona Romana desce no ponto final com o céu claro. Para chegar a casa onde trabalha vai enfrentar mais três quilômetros de caminhada.

Os ônibus não circulam nessa região. Ela nem chegou ao serviço e já pensa no transtorno da hora da volta. Mais três horas até em casa. "Ônibus lotado de você não dar conta de respirar".

É assim a vida de quem depende de transporte público no país durante a madrugada. Passou da meia noite, o ônibus desaparece.

 

"É uma cidade que dizem que foi bem planejada, mas quando vai pensar na situação dos pedestres é calamidade pública". "Você sai de casa sabendo que vai enfrentar um terminal desse. Tem que enfrentar isso todo o dia. É uma humilhação". "O transporte para como se a cidade parasse. Tem muita gente trabalhando, mas infelizmente os que precisam de transporte tem que se sujeitar a essa situação".

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